Depois de uma viagem longa, cansativa e algumas horas procurando hotel na grande Porto Alegre, encontramos um na frente da Rodoviária. Somente levamos as malas ao apartamento e já saímos em direção de Vila Jardim com a última rua da Chácara das Pedras.
Na metade do caminho da Rodoviária no Centro até a última rua da Chácara das Pedras, tiro uma soneca e acordo com uma vibração no carro causada pela rua de tijolos com algumas partes uniformes de asfalto. Acordo e imediatamente olho para o lado esquerdo e vejo uma casa de cor verde-clara, com um pinheiro imenso no lado direito, com o muro baixo, grades baixas marrons, um portãozinho que dá acesso à garagem, uma escadinha que dá acesso à casa com a porta desalinhada com a escada. Acho que somente pra mim exclamo:
- É aqui! É aqui!”
E o sono de repente passa.
Descemos do carro, e logo percebemos que tem um bando de pessoas que há muito tempo não nos viam e logo vi aquela moça bonita, com cabelos curtos grisalhos, descendo a garagem devagar, vestida com uma blusa de lã vermelha com algumas listras pretas, saia longa preta e com pufes nos pés rosa descendo a garagem. Entramos pelo portão mais alguns passos e dei um abraço gostoso nela e na Marilda e então nos acolheram do frio que fazia nesta noite e entramos pela parte de trás da casa.
Entramos pela cozinha, onde já tinha bolinho de arroz e sagú feito com farinha de mandioca e suco de uva e alguma outra guloseima que a Vó sempre faz quando os netos visitam ou quando ela vai nos visitar. Uma mordida de bolinho de arroz, vou na sala e sento num dos três sofás. Conversando e matando a saudade, alguém tocou no meu nome e começaram a contar as minhas histórias que aprontei quando pequeno. Uma certa hora, minha Vó puxou uma foto que estava no topo de uma estante alta na sala que não tinha visto e me mostrou. Era eu e minha irmã no meu colo, na cama onde todos nós dormíamos na casa do Parque das Laranjeiras. E contou o que aconteceu no momento daquela foto, algumas outras histórias minhas e eu ficava olhando e já neste momento os olhos começaram a pesar, mas eu escondia. Dei algumas risadas e logo fiquei prestando atenção enquanto ela ia sem pressa até o quarto. Porta entreaberta não demorou menos que alguns poucos minutos até tornar a abri-la novamente e caminhar na mesma velocidade na minha direção. Quando ela chegou na sala, abriu uma minúscula blusa bege ou amarelada que era minha quando tinha uns 2 anos de idade que, com pouca certeza era branca mas mudou de cor com o tempo, com um desenho no meio que talvez fosse o do Mickey Mouse ou um outro rato qualquer e disse:
- Ó, lembra quando tu usava isso aqui?
Os olhos pesados não resistiram e comecei a chorar calado, um choro de alegria e de tristeza, alegria por estar ouvindo a voz dela, a risada gostosa com a alegria infinita com o sotaque levemente gaúcho, das guloseimas é errado mas, gostosas demais, do abraço e da sua calma. E triste por não saber quanto tempo iria durar aquilo tudo. Minha mãe me deu um abraço e pedi pra ficar só e fui lá pra fora no frio fumar um cigarro. Fumei mais um, e mais um choramingando e a Marilda foi comigo conversar. Disse que todos gostam muito de mim e que minha Vó sempre comenta sobre mim. Chorei mais um pouco e fui encorajado a entrar. Fiquei ouvindo e memorizando ao máximo das minhas histórias quando criança e fiquei com os olhos pesados até quando criei coragem de chamar minha Vó pra fora e dizer palavras entaladas por tanto tempo choramingando que somente poucos amigos sabiam.
“Vó, eu sei que a senhora ajudou muito na minha criação e educação quando era criança de colo até não sei que idade, sei que já falava, seja lá quanto tempo, sei que nunca me faltou carinho e atenção. Eu gosto muito da senhora, não digo “eu te amo” porque é muito fácil abrir a boca e falar. Quando gostamos de uma pessoa, não precisa falar nada, dizer uma única palavra, gesto, mímica, nada. Tem gente que faz força pra chorar. É de falsidade, de querer algo. Mas quando os olhos pesam, e, quando vem um sentimento maior, e você se entrega e chora, isso é muito mais que gostar, de amar, de todas as palavras somadas relativas ao amor, mais que impar e único. Isso que eu sinto da senhora. A senhora é do caralho.“
Abraços e beijos, e fomos nos aquecer dentro da casa verde-claro do imenso pinheiro no lado direito na frente da casa na Vila Jardim, com a última rua da Chácara das Pedras.
Nossa, que emoção! Tu me fizeste chorar…Que amor de vó…